Produções
Patrimônio Cultural
Segundo Benedito Lima de Toledo, o homem só pode existir respondendo às exigências de seu habitat. Fica clara, nessa perspectiva, a divisão do patrimônio cultural em três grandes categorias de elementos proposta por Varine Bohan.
O primeiro, do meio ambiente do homem, o quadro natural; o homem e o quadro feito pelo homem, o quadro da vida do homem. Há todos os estágios entre a natureza virgem e selvagem e a natureza urbanizada, mas, de um modo geral, o homem colocou sua mão sobre o mundo, e o formou, modelou. Em si esse meio é um elemento do patrimônio, herdado de gerações, de gente do campo, de gente de cidades, que construíram um meio ambiente para si.
O segundo elemento “oposto à natureza seria o que provem da ciência e do conhecimento.” E conclui:
“Há enfim, o que temos o habito entre nós, aqui, de chamar de patrimônio; isto é, o que o homem fabricou, geralmente com a natureza e seus conhecimentos, patrimônio usualmente chamado de bem cultural (...)".
“Acho que é um método intelectual muito útil aprender a considerar que as partes do meio ambiente do homem – econômicas, sociais, naturais, físicas, fisiológicas – são uma coisa só e nosso comportamento de consumidores afeta tanto o patrimônio de recursos econômicos quanto o cultural”.
É inerente, portanto, à história da cidade, a sua percepção como um organismo vivo e como tal em permanente mutação. Essa visão é incompatível com a concepção passadista para a qual só o antigo tem significado. De outra parte essa visão evolutiva leva à constatação de que, sem o presente, não há passado e de que é necessário achar um “futuro para o nosso passado”, como forma de apropriação do presente. Essa apropriação beneficiaria a sociedade que nela identifica seus valores.
Ora, a perda das manifestações arquitetônicas e paisagísticas expressivas, impossíveis de serem recriadas fora dos quadros que as geram, leva à perda justamente dos referenciais que permitem a identificação do cidadão com sua cidade.
Essa perda de identificação tem graves efeitos psicológicos, analisados em publicações da UNESCO que apontam as ansiedades dos moradores da cidade.
“A este respeito, a casa de moradia, como assentamento da família, é de capital importância. Cada um de seus membros adquire significado à medida que a vida do indivíduo prossegue. A importância das primeiras impressões na construção da psique é bem conhecida”.
A identificação com o ambiente é tamanha que uma mudança desta tem repercussões nem sempre percebidas.
“Modelamos nossa habitação e ela nos modela. Mudanças no meio ambiente, em um sítio urbano, nas funções de um edifício podem colocar em movimento um mecanismo de inter-relações o qual exige um esforço de adaptação que freqüentemente pode exceder as capacidades psíquicas das pessoas a ele submetidas”.
Os problemas psicológicos resultantes da falta de identificação com seu ambiente formam extensa lista.
A produção massificada, por sua vez, leva à monotonia e “... o indivíduo sente que não é mais um participante, ele perde o contato e não consegue estabelecer relações de vizinhança com os que moram à sua volta”.
E o estudo conclui que “a revitalização das antigas áreas é o mais rápido e mais barato meio de assegurar um elemento que humaniza as nossas sempre crescentes áreas construídas”.
Poderíamos, pois, concluir que a preservação e revitalização de nosso patrimônio ambiental urbano é antes de mais nada a defesa da saúde psíquica da população. Por outra parte, Ulpiano bezerra de Meneses diz que, “o conceito de identidade implica semelhança a si próprio, formulada como condição de vida psíquica e social. Nessa linha, está muito mais próximo dos processos de re-conhecimento, do que de conhecimento.”
O suporte fundamental da identidade é a memória, mecanismo de retenção de informação, conhecimento, experiência, quer em nível individual, quer social e, por isso mesmo, é eixo de atribuições, que articula, categoriza os aspectos multiformes da realidade, dando-lhes lógica e inteligibilidade (Bovet et alii, 1970; Bosi, 1979; Florès, 1972; Gardiner, org., 1976; Gregg, 1976; Hunter, 1964).
Maurice Halbwachs (1968), um dos primeiros sociólogos a se preocupar com o problema da memória coletiva, salientou, na sua constituição, a importância das “pedras da cidade” (o que chamaríamos de patrimônio monumental) – referências fixas, objetivas, visíveis, comuns.
Exilar a memória no passado é deixar de entendê-la como força viva do presente. Sem memória, não há presente humano, nem tampouco futuro, enfatiza Meneses.
Em outras palavras: a memória gira em torno de um dado básico do fenômeno humano, a mudança. Se não houver memória, a mudança será sempre fator de alienação e desagregação, pois inexistiria uma plataforma de referência e cada ato seria uma reação mecânica, uma resposta nova e solitária a cada momento, um mergulho do passado esvaziado para o vazio do futuro. É a memória que funciona como instrumento biológico-cultural de identidade, conservação, desenvolvimento, que torna legível o fluxo dos acontecimentos. A memória me interessa porque estou vivo, aqui e agora.
Esse “aqui e agora” é produto de nossa historia. E ambos elementos estão tão presentes no futuro como este contido no passado. Assim, o futuro nos espera – protegido pela causalidade – no interior mutável da MEMÓRIA VIVA.
